Últimas Novidades

Fisiologia do Sono e dos Sonhos


Principalmente após uma noite de sono bem dormida, sabemos da que o sono possui importância fundamental na nossa vida, afinal, passamos em média um terço de nossas vidas dormindo. Mas como o sono funciona? Por que dormimos? Ainda, podemos sonhar durante nosso sono. Por que? Como se formam os sonhos? São todas estas questões que serão abordadas nessa sequência de textos sobre a Fisiologia do Sono e dos Sonhos!

I - Introdução a Fisiologia do Sono

O sono é definido pelo estado de inconsciência do qual a pessoa pode ser despertada por um estímulo, como quando chamamos a pessoa, ou então, pelo som do despertador. O sono é dividido basicamente em dois estágios, alternando-se entre estes durante a noite. Um dos estágios é chamado de “sono de ondas lentas” e é caracterizado pela observação em eletroencefalograma (EEG) das ondas cerebrais de grande amplitude e baixa frequência e o outro estágio, o “sono com movimentos rápidos dos olhos – REM”, caracteriza-se principalmente pela rápida movimentação dos olhos, apesar do indivíduo estar dormindo.

A maior parte do sono é constituída pelo sono de ondas lentas, de perfil profundo e restaurador nas primeiras horas de sono. O sono REM corresponde a aproximadamente um quarto do período de sono. Estima-se que em média ocorra a cada 90 minutos e seu perfil está relacionado aos sonhos vívidos, ou seja, ao período o qual somos capazes de sonhar. A fisiologia do sono de ondas lentas é caracterizada principalmente pela diminuição do tônus vascular periférico além de outras funções vegetativas do corpo: frequência respiratória e metabolismo podem reduzir-se em até 30% em relação ao estado de vigília (acordado). Embora o sono REM seja relacionado aos sonhos vívidos, durante o sono de ondas lentas também podemos sonhar, ou até mesmo ter pesadelos.

O sono REM pode durar até 30 minutos. Quando estamos cansados, tendemos a sonhar menos em sono REM. Isto por que o intervalo de sono REM é menor. Assim, quanto mais descansados estivermos, maior o intervalo de duração do sono REM, aumentando o número de sonhos. Uma outra característica importante do sono REM é o fato de que frequentemente acordamos pela manhã logo após um episódio de sono REM. Apesar da intensa inibição muscular periférica, alguns movimentos irregulares podem ocorrer durante o sono REM: o encéfalo fica muito ativo além do metabolismo aumentar até 20%. O eletroencefalograma (EEG) durante o sono REM mostra atividade cerebral semelhante ao estado de vigília, por isso, o sono REM também pode ser chamado de sono paradoxal.

EEG nas diversas fases do sono e vigília (Fonte).

Ao contrário do que se acreditava no princípio do estudo da fisiologia humana, o sono é um processo inibitório ativo. Regiões abaixo da região médio-pontina, no tronco cerebral, são essenciais para a inibição de todo o encéfalo durante o sono. A região mais importante para a indução do sono são os núcleos da rafe, situados na metade inferior da ponte e no bulbo. As fibras desses núcleos se disseminam através da formação reticular do tronco cerebral, além de regiões como o tálamo, hipotálamo, a maior parte do sistema límbico ou algumas regiões do córtex cerebral, inibindo-as. As fibras do núcleo da rafe se direcionam também na medula espinhal, chegando até os cornos posteriores, inibindo inclusive a dor.


Atualmente sabe-se muito bem da importância do sono para a saúde. Restrições moderadas de sono por alguns dias podem influenciar negativamente no desempenho cognitivo e físico, produtividade e saúde geral. Em casos mais extremos, a falta de sono pode levar a morte. O sistema nervoso é o sistema mais afetado pela qualidade do sono: a falta de sono leva ao funcionamento anormal do pensamento, alterando também o comportamento do indivíduo. Assim, a principal função do sono parece ser restauradora, compensando o balanço natural entre os centros neuronais utilizados durante a vigília. Outros estudos já mostraram a importância na maturação celular, facilitação do aprendizado e memória, cognição e conservação de energia metabólica, porém, muito tem sido contestado sobre estas supostas funções adicionais.

Como começamos a dormir?

Moruzzi e Magoun, neurocientistas italiano e americano, respectivamente, demonstraram que a estimulação elétrica da formação reticular mesencefálica promovia o estado de vigília, e que uma lesão nessa região promove o coma. A experiência demonstrou que a transecção do tronco cerebral ao nível médio da ponte impede que o córtex do cérebro durma. Descobriram também que a formação reticular mesencefálica é inibida por um sistema localizado no bulbo.

A estimulação do hipotálamo posterior produz alerta parcialmente mediado por neurônios histaminérgicos que se conectam para baixo com células do tronco encefálico e acima com células prosencefálicas. A destruição desses neurônios histaminérgicos no hipotálamo posterior aumenta o sono. Igualmente, o bloqueio das projeções histaminérgicas por medicamentos promove o sono, como observado na utilização de anti-histamínicos de primeira geração (dimenidrinato, também conhecido pelo nome farmacêutico "Dramin").

Já o hipotálamo anterior, sob estimulação, induz o sono, e a lesão dessas áreas produz vigília prolongada. A ação indutora de sono dessa área é mediada por neurônios inibitórios GABA-érgicos chamados células on-não-REM, que produzem sono por inibir as células histaminérgicas do hipotálamo posterior e as células do núcleo reticular pontino que medeiam o alerta. Esses neurônios são muito ativos no sono não-REM.


Como foi abordado, o sono se mostra essencial a vida, com diversos mecanismos de indução e como pode nos prejudicar quando em falta. No próximo texto iremos abordar a fisiologia própria dos sonhos. Como visto, os sonhos são relacionados ao sono REM, porém, quais seriam os mecanismos envolvidos no sonho? Quais as implicações de sonhar? Como interpretar um sonho? São questões para o próximo texto.