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Por que algumas músicas nos dão arrepios? – Série Fisiologia das Sensações


Todos nós sabemos da importância da audição. Basta ficarmos poucos momentos sem o áudio de um filme para que já procuremos pelo botão de volume do celular ou da televisão, certo? De toda a forma, a importância da audição vai muito além da nossa sessão de filmes e séries. Os sons nos fornecem informações muito importantes sobre o nosso entorno. Ouvir a um carro em nossa direção, um jarro de vidro que se estilhaça no chão ou ainda um latido de um cão pode nos salvar de situações muito graves. Desde pequenos somos expostos a uma infinidade de sons, os quais podem participar inclusive do molde de alguns traços de nossa personalidade, como a preferência musical ou da nossa capacidade de nos emocionar, como discutido neste TEDtalks.

A audição é considerada um dos sentidos especiais. Diferentemente dos sentidos somáticos, como temperatura e pressão, por exemplo, o que caracteriza os sentidos especiais é a percepção de estímulos mais complexos. Além de ouvir, o ser humano também é capaz de criar sons. Uma das características mais marcantes da nossa espécie, como encontra-se evoluída, é a capacidade de nos expressar além da fala ou de gestos. A música, como arte, representa como podemos nos expressar de maneira muito mais complexa, embora alguns outros animais ainda também possam criar uma espécie de música como maneira de se expressar.

Não é raro também a nossa capacidade de nos emocionarmos com uma música. Muitas pessoas também relatam arrepios ao ouvir uma música em especial, mesmo não sendo a música tão emocionante assim. O número de estudos buscando explicar este fenômeno cresce a cada dia, o que mostra como a comunidade científica, assim como a maioria das pessoas ficam intrigadas com ele. Suspeita-se de uma infinidade de mecanismos, mas o que estaria por trás disto?

Como ouvimos?

O ouvido é separado em três partes: externo, médio e interno. O ouvido externo é composto pelo pavilhão auditivo (conhecido mais popularmente por orelha) e pelo próprio canal auditivo. Ao final do canal auditivo, encontramos o tímpano, o qual possui função essencial na audição. Além de separar o ouvido externo do ouvido médio, o tímpano é responsável pela transdução do som às estruturas responsáveis pela audição, as quais detalharemos a seguir.

O ouvido médio também contém os nossos menores ossos: martelo e bigorna e estribo. Estes ossos são responsáveis pela transmissão da vibração do tímpano ao ouvido interno. A cóclea e o labirinto são responsáveis pela transdução das informações do ambiente – som em forma de vibração e posicionamento do organismo em relação ao ambiente, respectivamente – a sinais os quais o cérebro é capaz de interpretar – elétricos. O funcionamento do labirinto, presente também no ouvido interno, poderia ser melhor explorado em um próximo texto, entretanto, pode-se adiantar que seu funcionamento a nível celular se assemelha ao da cóclea.

Divisões e estruturas anatômicas do aparelho auditivo.
O som se propaga no ar através de ondas e o tímpano vibra de acordo com estas ondas. Os ossículos citados anteriormente – martelo, bigorna e estribo – transmitem a vibração do tímpano à cóclea. O movimento dos ossículos transmite a vibração ao fluido contido na rampa timpânica – a endolinfa, derivada do líquido cefalorraquidiano – através da janela oval da cóclea. O movimento da endolinfa é responsável pelo movimento dos cílios das células do órgão de Corti.

Cílios das células do órgão de Corti.
A vibração destes cílios, através de um complexo mecanismo intrínseco a membrana celular, leva a despolarização destas células, gerando padrões de sinais enviados ao cérebro através do ramo coclear do nervo vestibulococlear (oitavo par de nervos cranianos), de acordo com a frequência de vibração gerada (sons mais graves e agudos possuem valores menores ou maiores, respectivamente), sendo cada região da cóclea especializada em uma determinada frequência de som. É importante notar que as células especializadas em frequências mais altas são mais sensíveis, o que explica também o fato de que a perda auditiva normalmente começa pelos sons mais agudos.

Esquema representativo da relação entre o comprimento do duto coclear e a transdução do som. A frequência transduzida tende a diminuir de acordo com o aumento do comprimento do duto coclear.

Quem escuta é o cérebro! A via da audição

A via da audição pode ser separada em primária e não primária, compreendendo a interação de vários neurônios. A via primária é considerada uma via curta e rápida, mais associada a interpretação bruta do som. Já a via secundária pode ser associada a outras interpretações do som. De toda maneira, ambas são utilizadas quando escutamos algo. O córtex auditivo primário é o destino final de ambas as vias. É importante notar que há uma extensa integração destes sinais através de outras áreas do sistema nervoso, construindo uma resposta mais fina ao som, a qual será discutida mais adiante.





Vias da audição.

A primeira área que pode ser citada como pertencente a via auditiva é a interação do neurônio do nervo vestibulococlear com o núcleo coclear, presente na região superior do bulbo (ilustrado por 1). Neste caso, a maior parte das fibras cruzam-se, fazendo outra sinapse com o núcleo olivar superior (2). Para a terceira sinapse, as via auditiva ascende através do lemnisco lateral, até o colículo inferior (3). O colículo inferior participa ativamente das respostas reflexas de orientação de acordo com a origem do som, junto ao núcleo olivar superior. Então, a via segue até o núcleo geniculado medial (4), presente no tálamo, o qual modera a comunicação com áreas corticais responsáveis pela interpretação sonora, principalmente preparando uma resposta motora ao som.

A via secundária toma um outro caminho, uma vez que o sinal também passa através do núcleo coclear (1), porém, ascende diretamente através da formação reticular, semelhante a via primária, no entanto, não se comunica com as áreas do tronco encefálico citadas anteriormente, assim, a partir de uma sucessão de sinapses até o tálamo, o sinal pode ser distribuído para diversas áreas envolvidas na interpretação do som, as quais descreveremos mais adiante.

A principal região de interpretação do som é o córtex auditivo (5). É importante notar que na maioria das vezes os sinais auditivos são transmitidos do ouvido interno até o córtex auditivo através de vias cruzadas, sendo assim, mensagens ouvidas a nossa direita são em maioria processadas pelo lado esquerdo do cérebro. A principal função do córtex auditivo é processar diretamente os sinais oriundos do ouvido interno. Além do córtex auditivo primário (CAP), o córtex auditivo secundário também participa ativamente da interpretação do som, sendo estimulado por impulsos gerados no CAP, assim como de outras áreas de associação do tálamo, próximas ao corpo geniculado medial.

A interpretação do som

A percepção do córtex auditivo as diferentes frequências sonoras parece responder a um sistema de mapas, sendo as frequências mais altas processadas em uma das extremidades do CAP, assim como frequências mais baixas processadas em uma extremidade oposta, porém, o processamento de cada tipo de estímulo parece possuir um mapa particular, como por exemplo, o processamento de ruídos dos sons (também conhecidos por chiados), qualidades especiais de cada som ou ainda, as sensações psíquicas dos sons.

Os córtices auditivos primário (CAP) e secundário. Um dos mapas de interpretação do CAP considera a frequência do som, com uma região específica designada para um intervalo de frequências.

O córtex auditivo é responsável também pela interpretação de padrões sonoros, tanto de tom quanto de sequência. É o caso de identificarmos uma ambulância apenas pelo padrão de som emitido, mesmo sem que estejamos a enxergando.

Ao escutarmos padrões sonoros muito específicos, como palavras, os primeiros estudos relacionaram a participação da área de Wernicke. Designada em memória ao pesquisador alemão Carl Wernicke, também é conhecida por área 22 de Broadmann. De toda forma, esta área é responsável pela interpretação das palavras, faladas ou escritas, sendo muito utilizada na construção de coerência das frases. Esta função lhe foi atribuída com os resultados de pesquisas com pacientes com algum dano causado a esta área, os quais escutavam perfeitamente as palavras, porém, não eram capazes de agrupá-las em uma sequência que fizesse sentido, patologia também conhecida por afasia de Wernicke. 

A área de Wernicke se encontra somente no hemisfério esquerdo. O padrão de gesticulação durante o discurso também está relacionado a esta área, porém, também se relaciona este comportamento a ativação de outra região, mais conhecida pela sua relação com a linguagem A área de Broca (área 44 de Broadmann) é muito relacionada ao processamento da dicção, mas também relacionada a compreensão da linguagem. Isto por que pacientes com lesões nesta área também apresentam certa dificuldade em formar frases que tenham sintaxe coerente, assim como outros exames mais avançados também mostraram a ativação desta área no processamento de frases mais complexas. Dessa forma, há uma grande sobreposição de funções entre ambas as áreas. Sabe-se também que estas áreas são ligadas pelo fascículo arqueado, o que poderia participar ativamente desta sobreposição.

O hemisfério esquerdo do cérebro contém as áreas de Wernicke e de Broca

Ainda neste sentido, a nossa comunicação através da fala ilustra muito bem nossa capacidade de interpretar padrões sonoros, uma vez que as palavras são, em última instância, sequências de sons. Um estudo mais recente, entretanto, foi capaz de criar um mapa semântico de como nosso cérebro decifra nossa comunicação verbal. Isto relaciona nossa capacidade de processar o que uma determinada palavra significa dentro de um contexto e assim, desmitificar o que já foi observado nos outros estudos anteriores, uma vez que se acreditava que a comunicação verbal era limitada a poucas áreas cerebrais e ainda, envolvendo somente o hemisfério esquerdo do cérebro.

Os resultados deste estudo mostraram que a interpretação das palavras na verdade é feita por até 100 áreas diferentes de nosso cérebro, em ambos os hemisférios. O estudo também foi capaz de identificar algumas áreas como centros de associação a determinadas palavras e determinados assuntos, o que mostra como o cérebro organiza o processamento de diferentes componentes da linguagem.


Cada área do cérebro parece estar associada a interpretação de um determinado conjunto de palavras, como mostra o vídeo. Cada cor representa um conjunto de palavras com uma determinada semântica, o que nos mostra inclusive que o cérebro interpreta o contexto todo da frase, não palavra a palavra. Mesmo que inovador, este mapa cerebral da linguagem não nos mostra um guia definitivo de como o cérebro funciona. Na verdade, os resultados obtidos são limitados a uma faixa de comportamento muito restrito: os participantes eram todos de uma mesma região, falando um mesmo idioma e ainda, estas áreas foram ativadas enquanto os participantes ouviam a um texto. Dessa maneira, os pesquisadores acreditam que os conhecimentos prévios, a língua materna e ainda a cultura podem influenciar diretamente nas áreas ativadas.

Outras áreas relacionadas a audição e interpretação do sinal sonoro

A interpretação de sons demanda muito mais atividades cerebrais do que somente ouvir. A integração do sinal oriundo do ouvido interno determina uma resposta muito mais fina a um determinado estímulo. Sabe-se ainda que as áreas cerebrais ativadas durante uma resposta a um determinado estímulo sonoro podem variar. 

Nossa capacidade em interpretar os sons, como por exemplo, a diferença entre ouvir alguém gritar seu nome ou então, chama-lo de maneira suave, está muito ligada a grande capacidade do sistema nervoso em integrar os sinais com outras áreas do cérebro. 

Uma área muito conhecida pela integração de emoções ao que está sendo ouvido é o sulco temporal superior do córtex auditivo, mais precisamente do lado direito, muito útil na identificação da intensidade do som. Aliado a outros estímulos, fornece-nos informações muito importantes como o humor da pessoa que está gritando conosco, por exemplo. Entretanto, a ativação de diferentes áreas está relacionada a diferentes emoções que os sons podem nos provocar. De toda maneira, estudos mais recentes mostraram que o processamento da emoção por trás do som é processada antes mesmo da mensagem.

A nossa relação com a música

Com o avanço da humanidade, cada vez menos se foi necessário ativar vias de processamento de potenciais perigos, assim como cada vez maiores foram as chances de desenvolvermos outras atividades, as quais nos estimulam de maneira diferente. É o caso das artes. É uma maneira de expressarmo-nos a partir de valores estéticos. A música está contida neste contexto, sendo muito presente desde a Grécia antiga, porém há relatos e evidências que ela estivesse presente em civilizações ainda mais antigas, como a egípcia e chinesa.

Registros de até 5000 AC mostram precursores da arpa.

É sabido que as preferências musicais mudam conforme a idade de um indivíduo. O gosto musical também pode ser definido por culturas ou tendências. De toda forma, o ato de escutar a alguma música é considerado muito bom para a qualidade de vida, independentemente da idade ou cultura. Os motivos pelos quais ouvimos às músicas também são muitos, como por exemplo alívio do estresse, reduzir o sentimento de solidão ou simplesmente como passatempo e é difícil de negar que algumas tarefas se mostram menos tediosas quando acompanhadas de alguma trilha sonora.

A música parece ativar muitas áreas cerebrais quando estamos escutando a uma música. Isto por que, diferentemente de outros sons, normalmente uma boa música é composta de melodia e uma grande variedade de sons que, em sequência ordenada, se diferem da maioria dos sons que ouvimos. Esta áreas estão relacionadas ao nosso movimento, planejamento, atenção/foco e memória, o que não significa que estejam agindo efetivamente para o que normalmente são relacionadas, mas sim, integrando todas as informações que o conteúdo da música, além do estímulo auditivo, nos proporciona.

Este “poder” da música pode nos proporcionar situações e sensações consideradas muito arriscadas, evolutivamente falando, como nos aglomerar aos milhares somente para ouví-la, como no caso de shows ao vivo. Alguns pesquisadores também citam os papeis evolutivos que a música teve no desenvolvimento de nossa espécie. A música proporciona união e ainda, novas situações produtivas, todos contribuindo para o avanço da espécie.

O processamento cerebral da música 

Uma característica sensorial marcante da música é a sua métrica, ou seja, toda música apresenta uma sequência lógica de tons e batidas, os quais, segundo muitos pesquisadores, são muito estimulantes ao nosso cérebro. O ato de constantemente predizer um evento é uma das motivações mais fortes ao cérebro, e na música não é diferente, basta observar quando começamos a batucar no ritmo da música, ou então, cantá-la mesmo que não a conhecemos.

Podemos atribuir sim a função das áreas citadas anteriormente para o processamento bruto, ou seja, da interpretação do volume ou do tom que a música nos apresenta. Entretanto, podemos citar também o papel do cerebelo no processamento bruto: informações espaciais da origem do som, assim como duração e timbre. Outra área intensamente atrelada ao processamento da música é a amídala, a qual frequentemente é associada ao processamento de emoções. O córtex pré-frontal e sistema límbico também estão ligados ao processamento de emoções que as músicas nos proporcionam (primeiramente com suas variáveis citadas interpretadas individualmente), assim como a criação de memórias e evocação de recordações que a música pode nos trazer, além da criação de expectativas, as quais são importantes componentes destas emoções. 

Existem sim conexões diretas entre o cerebelo e a amídala, via de processamento envolvido no planejamento e de controle de como essas sensações (boas ou ruins) podem ser expressadas fisicamente (o que nos faz pular de alegria, por exemplo). A integração destas informações todas é feita pelo sistema mesolímbico, com especial papel da dopamina na comunicação entre as principais áreas. 

Através do que se sabe atualmente, é possível dizer que o cérebro processa o ritmo de uma música de uma maneira diferente do processamento das melodias, sendo inclusive utilizadas áreas completamente diferentes para tal. Algumas destas áreas inclusive, ao serem ativadas, podem desencadear movimentos. É o caso das músicas que nos dão uma vontade irresistível de dançar, no caso de uma intensa ativação de uma via corticoespinal por atividade do córtex motor pelo processamento da música. São observados inclusive outros efeitos sistêmicos, como alterações na frequência cardíaca e ritmo respiratório, inclusive sincronizando-se com o ritmo da música. 

Acredita-se que este fenômeno em nosso corpo seja uma maneira de nos adaptar-nos ao ambiente, criando uma espécie de conexão com ele. Outro exemplo disto são os momentos em que uma música pode nos fazer imaginar algumas cenas. Estas atividades estão ligadas a intensa ativação do córtex visual, assim como de áreas relacionadas a memória. Acredita-se que o cérebro atue desta maneira como resposta a predizer o que a música poderia nos representar, como sensações boas ou ruins, dependendo da maneira com que a música é interpretada.

Áreas encefálicas envolvidas no processamento fino da música e do contexto musical

Dessa maneira, parece que nosso cérebro é muito adaptado a música. Oliver Sacks, conhecido neurologista autor de vários livros na neurociência, cita em seu livro “Musicofilia” o quanto nosso sistema nervoso é afinado a música: não se sabe ao certo se todas estas respostas são geradas pelas características intrínsecas da música ou pelas ressonâncias, sincronizações, oscilações, excitações e retro-alimentações envolvidas na interpretação dela, em vários níveis dentro de nosso sistema nervoso. 

Os "arrepios" musicais

Uma sensação interessante derivada da sinestesia que a música pode nos proporcionar são os arrepios musicais, inclusive também documentados na literatura. Muitas respostas sistêmicas são observadas, como o aumento da frequência cardíaca, a dilatação das pupilas, aumento da temperatura corpórea, redirecionamento do fluxo sanguíneo para as pernas, maior ativação do cerebelo. A dopamina participa de maneira muito importante para estes achados principais: arrepio dos pelos e ainda, uma espécie de frio, o qual percorre por toda a extensão da espinha. Os estudos deste tema mostram que a música estimula um circuito relativamente antigo do nosso cérebro: a via mesolímbica dopaminérgica, também conhecido por circuito da recompensa.

A via mesolímbica dopaminérgica - conhecida como circuito da recompensa.

O principal funcionamento deste circuito envolve a ativação da área tegmentar ventral, estimulada por atividades consideradas prazerosas e/ou de recompensa, como jogos, sexo ou mesmo um sorvete, por exemplo. O pico de atividade da área tegmentar ventral (e consequente liberação de dopamina) parece acompanhar o clímax da música. Como foi discutido, o ato de predizer as condições que o ambiente nos oferece é uma atividade a qual o cérebro é condicionado e, acertar estas predições nos confere recompensas endógenas, que segundo a teoria mais aceita, seria um meio de retribuição ao aumento das chances de perpetuação da vida e da espécie, ainda, pensando em uma perspectiva evolutiva. O cérebro parece ter uma relação íntima com a música neste sentido, uma vez que o ato de predizer uma música poderia ser análogo a um jogo. 

Músicas são estímulos mais difíceis de se predizer, o que estimula nosso cérebro em uma intensidade maior, assim, se estes estímulos são preditos de maneira satisfatória emocionalmente, há o pico de liberação de dopamina que nos proporciona todos os sintomas citados. Ainda, músicas com conotação triste parecem ser capazes de desencadear este efeito com maior frequência quando comparadas a músicas com conotação alegre. Isto pode ser explicado pelo mecanismo que é ativado pela melancolia da música triste, o qual esteve relacionado, do ponto de vista evolutivo, a separação da família que nossos ancestrais (algo como se predizer uma situação satisfatoriamente quando estamos sozinhos aumentasse nossas chances de sobrevivência).

O interessante é que normalmente estes arrepios nos dão uma sensação boa. Ainda, outros estudos recentes mostram que músicas tristes evocam na verdade sentimentos positivos, o que também é ilustrado pela tristeza causada por alguma expressão artística é considerada mais agradável do que outros tipos de desapontamento, como uma perda familiar.

Durante o arrepio há também intensa liberação de adrenalina na corrente sanguínea. Isto explica os efeitos observados sistematicamente. Em relação a teoria de resposta fuga ou luta, onde a identificação de um estímulo potencialmente perigoso ao corpo incentiva ao preparo para qualquer que seja a resposta a ser tomada, nestes casos os preparativos nos auxiliam a inclusive perceber melhor o que as sensações da música. 

Um resquício evolutivo em nosso organismo é a piliereção. Em outros animais, a piliereção tem função vital envolvida principalmente com a manutenção da temperatura corpórea. Pode auxiliar também nestas condições ameaçadoras, em competição com outros indivíduos (os pelos dos gatos ficam eriçados quando nervosos, por exemplo), porém, durante a evolução do ser humano, estas funções foram abandonadas, desenvolvendo outros artifícios para as mesmas finalidades (como a habilidade intelectual).

A piliereção é considerada um resquício evolutivo no ser humano.
As passagens musicais que possuem harmonias inesperadas, com mudanças bruscas de volume, timbre ou tom são consideradas os principais gatilhos dos arrepios musicais. Existem outras nomenclaturas para esta sensação, como frisson, derivado do francês. Como citado, ao responder satisfatoriamente às expectativas de predição de um determinado trecho, há uma intensa liberação de dopamina no circuito de recompensa, porém, há quem relate já ter passado por um arrepio/ frisson também a partir de outros estímulos artísticos, como danças ou montagens/ exposições/ intervenções. Já foi observado, contudo, que quanto mais se repete uma música, menores as chances de se ter novamente um arrepio musical. Isto está relacionado a menor expectativa criada por nosso cérebro, uma vez que a predição fica cada vez mais fácil.

Sua personalidade está ligada as chances de ter um arrepio musical

Presume-se que até 86% da população seja capaz de passar por um arrepio musical. Já foi observado que, quanto mais imersa emotivamente a pessoa esteja na música, maiores as chances de um arrepio ser desencadeado. Além disso, a personalidade do indivíduo parece estar diretamente relacionada com a frequência de arrepios que a pessoa sente. Um estudo aponta que uma personalidade aberta a novas experiências (caracterizada por traços imaginativos, sendo um indivíduo apreciador da beleza e da natureza, que procura por novas experiências e está aberto a uma variedade de oportunidades) esteja mais propensa a sentir mais arrepios. Cada aspecto conta com certeza na frequência de arrepios que a pessoa sente.


Inclusive, a partir da música preferida de uma pessoa assim como ela responde a esta música podemos inferir muitas características da personalidade dela. De toda maneira, sabe-se que os arrepios estão associados a emoções mais profundas, inclusive pelo fato de haver mais conexões o córtex auditivo e o sistema límbico em pessoas que relatam uma frequência maior de arrepios musicais, o que nos mostra uma maior capacidade de processamento emotivo destas pessoas.

Como foi visto, a audição possui importância fundamental para a nossa vida. Conseguir nos adaptar a diferentes estímulos do nosso ambiente, como potenciais perigos, assim como conseguir interpretar nossos companheiros e mais ainda, nos expressar através da música mostram-nos como a audição, sendo um dos sentidos especiais, tem papel essencial para a composição da nossa espécie, contribuindo para a nossa perpetuação e ainda, para a complexidade de nossas interações.

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