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Fisiologia do Sono e dos Sonhos II - Os sonhos


A humanidade sempre tentou entender o significado dos sonhos. Em "A Interpretação dos Sonhos", Sigmund Freud defende a ideia de que os sonhos refletem nossa experiência inconsciente: os desejos reprimidos, inclusive aqueles associados ao sexo e à hostilidade, seriam liberados nos sonhos quando a consciência permanece diminuída. Entretanto, naquela época, a fisiologia do sono e sonhos apenas engatinhava, assim, seu trabalho baseou-se muito mais na interpretação psicanalítica dos sonhos.

Somente na década dos 1950, com a descoberta do sono REM como indicativo de que o indivíduo estava sonhando, outros novos estudos sobre os sonhos surgiram e alguns elementos da psicanálise passaram por modificações ou foram abandonados. Hoje sabemos que os sonhos são entendidos como parte do ciclo do sono. As teorias mais atuais se baseiam em achados neurofisiológicos e comportamentais, através do registro de ondas cerebrais, estudos com lesão e estimulação de estruturas no cérebro (de animais) envolvidas com os sonhos.

Por que o cérebro sonha?

Os sonhos se mostram muitas vezes surreais ou confusos, porém, uma das teorias sobre os sonhos defende que os sonhos são um meio pelo qual o cérebro se livra do excesso de informações ou de informações desnecessárias recebidas durante a vigília, um processo de "desaprendizagem" (do inglês, Reverse Learning), proposto pelos conhecidos pesquisadores Francis Crick e Graeme Mitchison, em 1983.

Estes pesquisadores postularam que o néocortex, uma complexa rede de associação neural, fica sobrecarregado por grandes quantidades de informações recebidas. O neocórtex poderia desenvolver, então, pensamentos falsos ou "parasíticos", pensamentos estes que comprometeriam o armazenamento verdadeiro e ordenado da memória. Esta teoria explicaria porque as crianças apresentam mais sono REM que os adultos. Elas necessitariam de “esquecer” as diversas associações erradas ou sem sentido que se formam durante a sua aprendizagem quando estão acordadas, favorecendo desta forma o armazenamento das associações ou informações que são verdadeiramente importantes.



Outros estudiosos teorizaram que os sonhos consistem de associações e memórias “armazenadas” na parte frontal do cérebro, em resposta a sinais randômicos do tronco encefálico. Os sonhos seriam o melhor "ajuste" que o cérebro poderia fornecer a este bombardeamento aleatório do tronco cerebral. Nesta teoria, os neurônios da ponte, via tálamo, ativariam várias áreas do córtex cerebral, ativando regiões que armazenam imagens ou mesmo emoções, e o córtex então, tentaria sintetizar as imagens disparadas. O sonho "sintetizado" pode ser completamente bizarro e mesmo sem sentido porque ele está sendo desencadeado por uma atividade randômica da ponte.

Com base em tais achados e teorias, podemos pensar que sonhos são mecanismos de defesa e adaptação, e a "loucura" manifestada durante este parece ser necessária para que nos mantenhamos "sãos" durante o nosso agitado estado de consciência. A função exata dos sonhos ainda é desconhecida, embora alguns pesquisadores tenham proposto várias teorias baseadas em achados neurobiológicos e comportamentais sobre o conteúdo dos sonhos.



Conteúdo dos Sonhos


Muitos sonhos não são prazerosos. Calvin S. Hall, fisiologista americano, catalogou mais de 10.000 sonhos de pessoas normais e encontrou 64% associados com tristeza, apreensão ou raiva; 18% eram alegres e excitantes; 1% eram associados com envolvimento sexual e 0,02% eram atos hostis contra o sonhador, tais como assassinato, ataque ou denúncia.

Sonhos Bizarros

As principais teorias dos sonhos sugerem que estes são um mecanismo de desaprendizagem ou esquecimento, onde, nesta situação, as associações são enfraquecidas: "Nós sonhamos para esquecer", isto é, nós sonhamos para reduzir a fantasia e a obsessão.

Em estudos com simulação neural em computadores, uma maneira muito fiel em simulação da operação do cérebro, os autores demonstraram que as redes se tornam carregadas quando se tenta armazenar nelas, um número excessivo de informações. Neste caso, a rede produz associações bizarras (podendo-se comparar com as "fantasias" dos sonhos), e ela tende a recorrer ao mesmo resultado, quaisquer que sejam os dados entrados (obsessão), e pode responder a sinais de entradas inapropriados os quais normalmente não eliciam respostas (alucinações).

Sonhos Emocionais

Sonhos emocionais podem refletir a personalidade do indivíduo, assim como uma situação por este vivida. Os sonhos podem expressar preocupações, desejos, insegurança e outros sentimentos ou sensações, revelando diferentes aspectos do estado mental das pessoas. Evidências desta observação foram demonstradas por Rosalind Cartwright, em um estudo que envolvia indivíduos separados e divorciados. Estes indivíduos eram acordados durante o sono REM para reportarem seus sonhos. No caso dos sonhos emocionais, o conteúdo do sonho pode estar relacionado com a maneira pela qual aquela pessoa estava lidando com a crise em questão.

A teoria de Crick and Mitchison sugere que a prevalência das emoções nos sonhos pode ser característica somente de sonhos que são lembrados, dado que os indivíduos normalmente são acordados pelos sonhos devido a ansiedade associada com eles. Nestes casos, o processo de aprendizagem e de esquecimento se reverte para uma aprendizagem positiva e então a sua recorrência pode ser explicada.



Movimentos Corporais Durante os Sonhos

Alguns dos movimentos corporais estão relacionados com o conteúdo do sonho. Edward Wolpert, da Universidade de Chicago, prendeu eletrodos aos membros de sujeitos adormecidos e registrou os potenciais elétricos de ação dos músculos. O registro de um de seus sujeitos mostrava uma sequência de atividade motora primeiro na mão direita, depois na esquerda e finalmente nas pernas. Acordado imediatamente depois, o sujeito relatou que sonhara ter levantado um balde com sua mão direita, transferindo-o para a mão esquerda e então começado a andar.

A Natureza Evolutiva dos Sonhos

Jonathan Winson sugere que os sonhos refletem uma estratégia individual para a sobrevivência. Para ele, a natureza do sonho REM sustenta um argumento evolutivo. Durante o dia, os animais processam informação em seus cérebros para poderem andar e movimentar os olhos, no caso de se alimentarem, se defenderem contra predadores, etc. Durante a noite, ao processar novamente aquelas informações durante o sono REM, tal reprocessamento não seria facilmente separado da locomoção, pois isto demandaria uma grande revisão da circuitaria cerebral. Então, para manter o sono, a locomoção deve ser suprimida inibindo neurônios motores (aqueles que promovem a locomoção). Os movimentos oculares, por sua vez, não necessitam ser suprimidos porque sua atividade não atrapalha o sono.

Outras teorias sustentam que os sonhos podem refletir um mecanismo de processamento da memória herdado de espécies inferiores, no qual a informação importante para a sobrevivência reprocessada durante o sono REM é necessariamente sensorial. De acordo com nossos ancestrais mamíferos, os sonhos em humanos são sensoriais, principalmente visuais.



Conclusão

Além de o sono restaurar as capacidades mentais, as memórias podem ser consolidadas durante o sono. O processamento das informações é sugerido pelos neurônios do hipocampo, os quais codificam a localização espacial e são ativados durante a vigília. Estes mesmos neurônios são mais ativados durante o sono REM durante o processamento daquela experiência vivida, sugerindo a consolidação daquela memória. Infere-se dos sonhos então o papel de relacionar as memórias a outras informações cerebrais, constituindo um processamento off-line de informações adquiridas durante o dia ao longo da vida do indivíduo.

Cada fase do sono é usada pelo cérebro para estocar determinado tipo de informação. Nas duas fases mais leves do sono, informações motoras, relacionadas a atividades como tocar um instrumento musical ou praticar um esporte. Nas fases 3 e 4, o cérebro se encarrega de armazenar principalmente a memória espacial. E a memória intelectual, ligada ao pensamento lógico e matemático, estaria relacionada ao sono REM.

Vimos nesta sequência de textos como atualmente se interpreta a fisiologia do sono e dos sonhos. Com certeza ainda é produto de muitas discussões e debates, afinal o assunto ainda se mostra muito obscuro, baseando-nos principalmente nos achados. Porém, as teorias mais atuais têm avançado junto a tecnologia empregada na investigação, inclusive com o uso cada vez mais de computadores e outros dispositivos que permitem a mensuração de aspectos que antes não tínhamos acesso.

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