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As outras funções da melatonina


Um dos hormônios envolvidos no controle de ciclo circadiano é a melatonina. Produzida pela glândula pineal, sua produção se mostra maior em crianças e gradualmente diminui conforme o avanço da idade. A suplementação de melatonina é normalmente utilizada para o tratamento da insônia, gerindo diversos processos fisiológicos no organismo, entretanto, a partir de estudos mais novos nos últimos anos, outras funções fisiológicas da melatonina estão sendo descobertas, assim como seu potencial terapêutico.

A produção de melatonina parte do aminoácido triptofano, presente em alimentos como o leite e seus derivados, batatas, castanhas e inclusive o chocolate. A alimentação rica em triptofano auxilia o organismo a manter os níveis normais de melatonina, entretanto, o requisito mais importante para a perfeita produção deste hormônio é a rotina equilibrada, inclusive do período de sono. Isto por que a melatonina é sintetizada a partir de estímulos de nosso ambiente, sendo a luz (principalmente a azul, próxima a 460 nm) inibidora de sua produção.

A produção da melatonina é regulada pela luz. A estimulação da melanopsina na membrana de determinados neurônios na retina leva ao controle da produção de melatonina, enviando sinais inibitórios através do nervo óptico ao hipotálamo. A distribuição destes sinais à medula modula a atividade do gânglio simpático superior, o qual sinaliza a glândula pineal, inibindo-a.

Mesmo que seja amplamente conhecida pela sua função na regulação do sono, através de pesquisas nos últimos anos, podemos citar que a Importância da melatonina vai além do controle do ciclo-circadiano: a melatonina também ajuda a combater alguns distúrbios metabólicos.

Pelo menos foi o que estudo conduzido no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP) demonstrou. Os resultados indicam que o hormônio ajuda a controlar a ingesta alimentar, nosso metabolismo energético (incluindo o depósito de tecido adiposo), bem como a síntese e ação da insulina em nossas células. Além disso, o hormônio possui atividades anti-hipertensivas, participando das respostas ao exercício físico e ainda, da neurogênese no desenvolvimento fetal e pós-natal.

Os resultados do estudo foram publicados em 2014, nas revistas Journal of Neuroendocrinology e Journal of Pineal Research. Em entrevista à Agência FAPESP, o médico José Cipolla Neto, responsável pelas pesquisas comentou os resultados dos estudos, evidenciando o papel fundamental da melatonina sobre o controle do peso corpóreo.

Além de suas funções clássicas, é proposta as funções da melatonina um papel neuro-protetor, uma vez que ao consolidar o sono, torna a vigília mais eficiente.

Uma das maneiras com que a melatonina regula o peso corpóreo relaciona-se com o desvio da energia ingerida para os estoques energéticos, como o tecido adiposo, através do estímulo a secreção e ação da insulina. Dessa maneira, o potencial terapêutico da melatonina, sobretudo no diabetes tipo 2, se mostra cada vez mais importante.

Um dos experimentos do estudo mostrou como a reposição da melatonina, em indivíduos idosos, pode ser benéfica. Os estudos com animais mostraram que as alterações metabólicas encontradas em maior frequência nestes indivíduos foram revertidas a partir da reposição da melatonina. Foi mostrado também que a hiperglicemia é a principal etiologia da menor produção da melatonina, alterando a função da glândula pineal.

José Cipolla Neto também destaca na entrevista que outros fatores prejudicam a produção de melatonina. Como já foi abordado aqui no Blog Biomedicina Brasil anteriormente, a fotoestimulação sobretudo de ondas azuis, em períodos de atividade da glândula pineal (em média, a partir das 20h), inibe a produção de melatonina. Em menor medida, algumas intervenções médicas também podem alterar o padrão de produção da melatonina, como os beta-bloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio e inibidores da enzima conversora de angiotensina – fármacos muito utilizados no manejo da hipertensão).

Mesmo com os resultados obtidos pelo estudo, a suplementação da melatonina ainda possui indicações particulares. A insônia e o “jet lag” são alguns distúrbios que são tratados a partir da suplementação de melatonina. Embora alguns estudos já mostrem a importância da melatonina no tratamento do câncer e da hipertensão, a utilização desta no tratamento destas doenças ainda se mostra em fase de estudos.

A produção de melatonina varia conforme o período do dia, de acordo com a incidência de luz. Estima-se que o pico de produção esteja por volta das 2h da manhã, podendo variar de acordo com os hábitos de vida do indivíduo. É importante notar que, de acordo com o gráfico, a produção de melatonina parece crescer gradualmente, enquanto que a inibição de sua produção parece mais abrupta. Este comportamento talvez esteja relacionado aos papéis da melatonina no organismo.

Nos últimos anos o consumo da suplementação da melatonina cresceu muito, entretanto, na entrevista, José Cipolla Neto destaca que ao contrário de outros suplementos, o consumo contínuo não interfere na produção endógena de melatonina, embora destaque também que o consumo deste suplemento deve ocorrer somente a noite, pouco antes de dormir.

Entretanto, o consumo do suplemento em dose inadequada, ou então em horário inadequado leva a alteração da ritmicidade circadiana, exigindo cuidados sobretudo em crianças. Isto por que é utilizado para o tratamento de alguns distúrbios do sono em crianças, como a síndrome das pernas inquietas.

No começo do século, a melatonina foi proibida no Brasil por conta do uso inadequado, inclusive a por parte das propagandas dos suplementos contendo o hormônio. Entretanto, José Cipolla Neto indica que de acordo com a literatura atual já há indícios suficientes para a liberação da venda no Brasil, ainda que sob prescrição médica. Mais recentemente, a comercialização da melatonina foi autorizada pela justiça, entretanto apenas as farmácias de manipulação podem comercializá-la, exigindo receita médica.

A suplementação da melatonina exige cuidados: em excesso e/ou fora de horário de produção natural pelo organismo, aumenta os riscos de algumas doenças crônicas, como o diabetes. O cuidado deve ser especial para a dose, uma vez que a metabolização do suplemento deve ocorrer até o momento de acordar. Uma quantidade acima da capacidade de metabolização do organismo pode permitir a permanência do hormônio na circulação sanguínea durante o dia, o que, a longo prazo pode levar a um quadro de resistência insulínica pela manhã no indivíduo, predispondo-o ao diabetes.

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