2.8.17

Luz e saúde I: O ciclo circadiano e suas peculiaridades

O que é o ciclo circadiano, qual a ação dos aparelhos eletrônicos sobre ele e novas metodologias no tratamento de algumas doenças utilizando a luz.

A luz é mais importante para nós do que imaginamos: é essencial para o nosso relógio biológico, mas como os nossos hábitos com os aparelhos eletrônicos podem alterar o nosso relógio biológico? Além disso, novos estudos indicam a luz como ferramenta no tratamento de algumas doenças, mas como a luz pode adotar papel benéfico ou ruim para a nossa saúde?

Cada vez mais nos vemos dependentes da ‘era digital’. Os aparelhos eletrônicos, como computadores e celulares, se tornaram ferramentas essenciais, como a que você está utilizando neste momento, e conhecemos muito bem suas funcionalidades: mandar mensagens, tirar fotos, acessar a internet e redes sociais, assim, nos comunicar. A cada dia fica mais difícil ficar sem utilizá-los, seja por trabalho, estudo ou diversão.

Entretanto, os problemas da utilização excessiva se mostram por exemplo, a partir de estudos publicados mostrando o uso excessivo do celular desencadeando síndromes psicológicas ligadas a ansiedade, principalmente – a chamada nomofobia (Link). Outros ainda indicam lesões nos membros relacionadas a utilização prolongada dos celulares (Link). Além disso, há relatos de distúrbios causados principalmente pelo desbalanço do nosso ciclo circadiano (Link).

Mas o que seria o ciclo circadiano? 

A partir da etimologia da palavra (do latim circa diem - que pode ser entendido como “cerca de um dia”) indica-se o ciclo circadiano como todas as alterações fisiológicas que decorrem do controle do hipotálamo sobre nossas atividades diárias, como o sono e a alimentação. Assim, o nosso ‘relógio biológico’ responde a variações no ambiente, como a intensidade da luz, regulando o ciclo sono-vigília, indicando a necessidade de dormir, ou então, acordarmos, por exemplo.

Baseando-nos então nos princípios do ciclo circadiano, fica mais fácil entender como a utilização excessiva dos aparelhos eletrônicos pode nos trazer problemas. Veja, não apenas os celulares, mas todo equipamento que emite luz, principalmente azul, interfere na nossa percepção de claridade e assim, na regulação do ciclo circadiano. A medida que o dia acaba, a menor intensidade de luz desencadeia a liberação de melatonina, hormônio o qual é frequentemente associado ao sono e a interpretação da noite pelo organismo. Utilizar os equipamentos no período da noite desregula nossa percepção do horário, podendo gerar incômodos como a insônia (Link).

Isto porque, alguns neurônios na nossa retina são especializados na percepção da luz, sem a finalidade de necessariamente formar imagem. No caso, tais neurônios expressam a substância fotoreceptora melanopsina, sendo fotossensível ao comprimento de onda de 480 nanômetros (nm), dentro do espectro azul da luz visível. Estes neurônios se comunicam com muitas áreas do encéfalo, justamente a fim de modular a atividade de diversas funções do organismo, uma das funções do ciclo circadiano.


Os LEDs utilizados na maioria dos equipamentos eletrônicos (televisões, monitores, celulares, tablets e outros) utilizam o comprimento de onda de 460 nm para gerar a luz branca, o que dá o seu aspecto azulado. Desta maneira, não é de se surpreender que a utilização prolongada destes equipamentos interfira na interpretação do horário, afinal uma fonte de luz de alta intensidade em uma distância muito pequena, justamente emitindo um comprimento de onda muito próximo ao pico de fotosensibilidade dos neurônios responsáveis pela modulação do ciclo circadiano não ajuda muito nosso organismo a entender quando é dia ou noite, ainda mais quando estes efeitos são levados ao longo prazo.

Mesmo que a exposição excessiva à luz azul esteja relacionada a muitos problemas citados, a luz também tem sido testada para o tratamento de algumas doenças, como a depressão, além de aliviar sintomas da doença de Parkinson. Claro que os mecanismos por trás destes achados ainda estão em estudo e muitos outros devem ser feitos até que se entenda como a luz pode nos ajudar a tratar doenças.

Justamente por interferir em um sistema que pode controlar muitas funções do nosso organismo, a luz se mostra um importante método alternativo de terapia. No caso da doença de Parkinson, o estudo utilizando a luz dividiu os pacientes em dois grupos: o primeiro grupo foi formado por pacientes expostos a uma caixa de luz brilhante por duas vezes ao dia, durante duas semanas e o segundo grupo foi composto de pacientes que foram expostos a uma caixa com luz vermelha, como controle. Ao final do teste, os pacientes do primeiro grupo se apresentaram mais ativos durante o dia e ainda, sinais de melhora nos sintomas relacionados à movimentação característica da doença, quando comparados ao grupo controle (Link).

O grande potencial destas metodologias envolve muitas questões que ainda precisarão ser melhor estudadas. Isto porque todas as terapias apresentam limitações, e neste caso, a luz é frequentemente associada a outros distúrbios, como os relacionados nesta matéria. Desta forma, tal metodologia, a partir de outros estudos futuros, poderia diminuir a utilização de medicamentos e seus efeitos adversos.

No próximo texto, veremos como a luz pode ser utilizada também como artifício na cicatrização de feridas, assim como na resolução de outras doenças, como a depressão. Se você tem alguma colocação, comentário ou sugestão para os próximos textos, fique à vontade, ok?


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