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Entrevista com Alexander Birbrair, biomédico cujo trabalho foi capa da Science

Após vencer o Three Minute Thesis em 2014, e receber o prêmio Gordon A. Melson Outstanding Doctoral Student Award 2014/2015, que prestigia o aluno de doutorado com maior destaque em produtividade de pesquisa e qualidade, o biomédico Alexander Birbrair teve seu artigo estampado na capa da revista Science.

O artigo Fetal liver hematopoietic stem cell niches associate with portal vessels, publicado em 08 de janeiro de 2016, contou com a colaboração de treze pesquisadores e é uma esperança para a expansão de células usadas em transplantes de medula. Formado em biomedicina pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), em Ilhéus, Birbrair atualmente faz pós-doutorado no Hospital Albert Einstein, em Nova York.


Acompanhe a entrevista e conheça um pouco mais sobre a trajetória do nosso colega de profissão, que é motivo de orgulho para a classe biomédica.


Como foi o início na Biomedicina?


Na época do vestibular, eu sabia que queria ser cientista e pesquisador, e queria descobrir algum tipo de tratamento na área médica, especialmente porque tive um amigo de infância (Rodrigo Bardon) que sofreu um acidente e ficou hemitetraplégico, sem movimento na metade do corpo. Somos grandes amigos, ele sempre me incentivou e incentiva até hoje. Ele é um exemplo para mim de luta e perseverança para alcançar os objetivos. Enfim, houve algumas ocasiões na minha vida em que, em contato com doenças, eu queria achar alguma solução para curá-las. Então sempre pensava em fazer medicina, não para curar, mas para inventar curas que ainda não existiam.

Meus pais são professores de matemática, ele, Lev Birbrair, na Universidade Federal do Ceará (UFC) e ela, Marina Sobolevsky, na Universidade Estadual do Ceará (UECE). Então o ambiente acadêmico sempre esteve presente em minha casa. A parte de medicina que eu não era tão apaixonado era exatamente a de ser médico prático, atender pacientes. O meu sonho era tentar inventar novas curas.

Prestei vestibular para Medicina na UFC e passei na primeira fase. Só que meus pais, quando estavam fazendo minha inscrição para medicina em Ilhéus, viram que tinha um curso de biomedicina que me daria a chance de fazer exatamente o que eu sonhava, pesquisa em medicina. Além disso, no vestibular de medicina em Ilhéus, a prova de inglês era obrigatória, não poderia ser outra língua. E como eu não sabia nenhuma palavra em inglês, assim acabei meio casualmente em Ilhéus fazendo biomedicina. E tive muita sorte porque encontrei um grupo muito bom, professores maravilhosos, com vida laboratorial muito intensa. Tive dois orientadores muito queridos na iniciação científica, Rachel Passos Rezende e João Carlos Teixeira Dias, que continuam professores na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). E vários dos meus colegas se destacaram bastante, muitos estão em centros de pesquisa bem conceituados espalhados pelo mundo: Nova York, Washington, Califórnia, Canadá, e a maior parte deles hoje está na USP, tanto em São Paulo quanto em Ribeirão Preto.


Quando começou a se interessar por pesquisa? Desenvolveu algum trabalho durante a graduação?

Eu tive na graduação um grupo muito bom de colegas e professores que impulsionaram meu amor pela pesquisa. Na graduação eu atuei principalmente nas áreas de microbiologia e genética, e ganhei um prêmio na UESC pelo melhor trabalho na iniciação científica, no qual estudávamos a diversidade genética de um certo tipo de bactéria chamada Chromobacterium violaceum. Ela é ambiental, não é uma bactéria que usualmente causa infecção, mas em Ilhéus, na época, tinham sido registrados alguns casos de falecimento provocados por esta bactéria.

Então, com a orientação dos professores e com o grupo - em ciência tudo se faz em grupo - conseguimos esses isolados e fizemos uma comparação genética. E num congresso, quando eu estava apresentando esse trabalho, alguém comentou “muito bem, você caracterizou muito bem essas bactérias. São diferentes, parece que houve uma mutação que tornou patogênica a bactéria que era ambiental, mas seria interessante que você estudasse todo o mecanismo, o que acontece quando essa bactéria infecta o organismo humano”. E para buscar a resposta a isso eu me interessei em estudar modelos de animais experimentais nos quais poderíamos analisar melhor a sinalização que acontece quando essa bactéria infecta a célula humana. Como essa era uma área em que a UESC não era forte, acabei parando na UNIFESP, na Escola Paulista de Medicina, usando os ratinhos experimentais de lá. Acabei fazendo um vínculo entre a UESC e a UNIFESP para o meu estágio de último ano de biomedicina.


Na sua opinião, o que é mais importante para seguir a carreira de pesquisador?

No que diz respeito a minha filosofia pessoal, eu tenho uma sensação contínua de que eu preciso experimentalmente fazer mais e melhorar a minha ciência. Apesar da frustração, que é normal na ciência, já que estamos sempre experimentando algo totalmente novo, eu percebi que esse sentimento é bom, e me mantém sempre motivado.


Como surgiu a oportunidade de trabalhar fora do Brasil?

Eu sempre gostei de ir a congressos para aprender algo novo nas palestras, além de sempre ter gostado de ler muito. Bem, depois que meu amigo ficou hemitetraplégico e os médicos diziam para ele que a única possível cura seria a regeneração do tecido nervoso, naquele momento as células-tronco começaram a ser muito discutidas. Eu tinha enorme admiração pelo trabalho de pesquisadores brasileiros que estudavam o assunto, por exemplo, a Mayana Zatz. Ela era para mim um exemplo a ser seguido (aliás, há dois anos fui no laboratório dela fazer uma palestra). Bom, em um congresso, apresentando um trabalho, conheci um professor argentino que há muito tempo trabalha nos Estados Unidos e tem um grande laboratório na Carolina do Norte, Osvaldo Delbono. Ele gostou muito das minhas ideias e planos do que eu gostaria de fazer cientificamente e me convidou para fazer o doutorado com ele nos Estados Unidos.


Quais as principais dificuldades enfrentadas pelo senhor durante a sua trajetória científica?

A principal dificuldade é estar longe da família e dos amigos, de casa (Brasil). O resto é só diversão, adoro o que faço e apesar de passar horas e horas dentro do laboratório, às vezes virando noites, tenho um grande apoio da minha esposa Veranika Birbrair.


Em qual(is) linha(s) de pesquisa o senhor atua?

Atualmente trabalho na pesquisa de células tronco no hospital Albert Einstein em Nova York. Tenho experiência na área de Biologia e Genética Molecular, Farmacologia, Fisiologia, Patologia e Biologia Celular.


Descreva o trabalho que lhe concedeu a capa da renomada revista Science.


No artigo intitulado "Nicho das células-tronco hematopoiéticas no fígado fetal está associado aos vasos portais", nós demonstramos que os pericitos (células contráteis que envolvem as células endoteliais dos vasos em todo o corpo) expressam Nestin e NG2. Associados com os vasos portais no figado, formam um nicho que promove a expansão das células-tronco hematopoiéticas.

Embora outros tipos de células-tronco sejam rotineiramente cultivadas em placas de Petri, as células-tronco hematopoéticas são muito difíceis de cultivar em laboratório. Elas parecem exigir que o ambiente da medula óssea funcione adequadamente. Esta pesquisa pode permitir aos investigadores recriar esse ambiente em uma placa de Petri.

O potencial dos pericitos do fígado fetal de promover a expansão das células-tronco hematopoiéticas poderá ser usado para desenvolver complexos sistemas de cultivo destas células em cultura para aplicações clínicas, tais como a expansão de células-tronco hematopoiéticas derivadas do sangue de cordão umbilical.


Com a carreira profissional praticamente desenvolvida nos EUA, acredita que o cenário da ciência brasileira ainda está longe do ideal?

Acredito que o Brasil está muito bem no cenário mundial. Há muitos artigos em revistas cientificas de alto impacto. Há também muitos cientistas renomados que são conhecidos por todo o mundo em diversas áreas. O Brasil me parece muito bem, e espero que o governo possa investir cada vez mais na ciência brasileira e nos pesquisadores que estão no Brasil. E sinceramente, eu gostaria de voltar em algum momento e poder ajudar ao crescimento da ciência que ocorre em nosso país.


Onde o senhor trabalha? Voltaria ao Brasil futuramente?


Trabalho no Hospital Albert Einstein de Nova York e planejo poder voltar ao Brasil no futuro quando surgir uma boa oportunidade, mas ainda sem data marcada.


Na Biomedicina, já teve vontade de trabalhar em outra área?


A pesquisa é tão ampla, com tantas áreas, uma relacionada com a outra, que você nunca sabe onde irá parar. Eu vou na direção que a minha ciência e meus experimentos me levam, quem sabe?


Uma mensagem final aos biomédicos?


Acreditem nos seus sonhos, nunca desistam. Escutem as críticas com os ouvidos, mas não com o coração. Para crescer em cima das críticas construtivas e tentar melhorar a cada dia. E tenham orgulho de ser biomédicos, porque é uma profissão maravilhosa, cheia de oportunidades e sonhos.


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