Habilitações

Biomedicina e Psicobiologia

A Psicobiologia é uma área de estudo que busca desenvolver o conhecimento sobre as bases biológicas do comportamento. Analisa como o ambiente influi no organismo, os processos psicológicos e quais aspectos estariam ligados ao genes.

As primeiras pesquisas sobre o comportamentalismo começaram com Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936), que possibilitaram descobertas no âmbito da fisiologia e mais tarde foram estudadas no âmbito da psicologia. Estudando o comportamento de cães, Pavlov afirmava que tudo o que aprendemos relaciona-se com o modo em que os estímulos produzem as respostas. Posteriormente, novos pesquisadores como John Broadus Watson (1878-1958) e Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) desenvolveram teorias mais aprofundadas sobre as reações emocionais a partir da influência do ambiente ou com testes realizados em animais. Atualmente, novos mecanismos neurobiológicos são desvendados baseados nesses e em outros estudos comportamentais.

A investigação das neurociências iniciou-se com Eric Richard Kandel (1929), através da Aplysia californica, que revelou aspectos fundamentais no processo de formação de memórias. Kandel acredita que a integração da psiquiatria com a biologia molecular trará uma compreensão mais completa da mente humana e estratégias terapêuticas mais eficazes.

Imagem: Ivan Dimkovic.

Somando-se conhecimentos de diversas ciências como a física, química, biologia e psicologia, a psicobiologia permitiu o estudo dos processos fisiológicos do organismo. Assim, tenta explicar como os sistemas nervoso, endócrino, circulatório e imunológico estão relacionados ao comportamento, atenção, emoções, memória, cognição, aprendizagem. entre outros. A influência de drogas sobre o organismo, além de doenças mentais como esquizofrenia, também são estudadas nesta área.

Teoria

A habilitação em Psicobiologia deve proporcionar ao biomédico conhecimentos sobre os diversos aspectos do sistema nervoso, como função, desenvolvimento, anatomia, doença, genética, processos farmacológicos e químicos, com o objetivo da compreensão mais profunda do comportamento cognitivo.

As principais disciplinas estudadas durante a especialização são:

→ Neuroanatomia: estrutura do sistema nervoso;
→ Neuroquímica: bases químicas da atividade neuronal;
→ Neuroendocrinologia: interações entre o sistema nervoso e o sistema endócrino;
→ Neuropatologia: doenças do sistema nervoso;
→ Neurofarmacologia: efeitos das drogas no organismo;
→ Neurofisiologia: funções e atividades do sistema nervoso.

Resoluções

Para habilitação em Psicobiologia, os biomédicos devem realizar cursos de pós-graduação lato sensu ou strictu sensu, reconhecidos pelo MEC.

Assim, para inclusão da habilitação conforme o Conselho Regional de Biomedicina, o profissional biomédico deverá obter sua experiência comprovada das seguintes maneiras: pelos cursos de pós-graduação, na conclusão da graduação (via estágio supervisionado de 500 horas) e nas residências multi-profissionais ou biomédicas, mediante comprovação de tempo de atuação ou residência.


Prática

A psicobiologia é definida como uma disciplina científica que estuda os mecanismos genéticos e neuroendócrinos que afetam o comportamento, a influência do sistema nervoso central na conduta, as alterações fisiológicas que determinam uma conduta específica e o homem como unidade biopsicossocial. A atuação do profissional habilitado é bem abrangente, sendo as grandes áreas de atuação:

→ Psicologia fisiológica: estuda os mecanismos neurológicos do comportamento através de alterações cerebrais induzidas por cirurgias, estimulações elétricas ou por testes em animais de laboratório.

→ Psicofarmacologia: estuda a manipulação nervosa pela utilização de drogas e substâncias psicoativas. Os medicamentos são usados ​​para demonstrar a relação entre cérebro e comportamento.

→ Neuropsicologia: estuda a relação entre cérebro e comportamento, tanto em indivíduos saudáveis ​​quanto em indivíduos com danos cerebrais Envolve os processos mentais de memória, pensamento, linguagem, funções, habilidades motoras mais complexas e percepção.

→ Psicologia comparada: estuda a biologia comportamental, quando diferentes espécies têm seus padrões de ação e adaptabilidade comparados. Pode ser aplicada em laboratório ou no ambiente natural.

→ Neurociência cognitiva: estuda a atividade cerebral por imagens funcionais do órgão. É a mais recente atividade de pesquisa e utiliza imagens funcionais do cérebro obtidas com registros eletrofisiológicos não-invasivos.

$ Salário $

Como a grande maioria dos biomédicos habilitados em Psicobiologia atuam na pesquisa e extensão, é impossível definir um valor médio de remuneração para a área. O salário dependerá do tamanho e importância da pesquisa e do vínculo do profissional com a instituição.

Opinião profissional

Nesta seção, entrevistamos uma neurocientista para que você possa conhecer um pouco mais sobre a habilitação.

Karina Possa Abrahão - formada em Biomedicina pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Fez o 4º ano da faculdade no Departamento de Psicobiologia e em 2006 iniciou um mestrado no mesmo departamento trabalhando com neurobiologia e efeitos comportamentais do álcool. No início de 2008, aplicou-se para um doutorado também no Departamento de Psicobiologia da UNIFESP, no qual desenvolveu um projeto sobre adaptações cerebrais associadas com diferenças comportamentais eliciadas pelo tratamento crônico com álcool. Fez um ano de doutorado sanduíche na Wake Forest University (WFU, USA), onde aprendeu técnicas de eletrofisiologia e quantificação protéica. Terminou o doutorado em 2012, e se engajou em um projeto de postdoc sobre estudo de plasticidade sináptica e memória em animais tratados com etanol no Departamento de Farmacologia da Universidade de São Paulo em colaboração com o Department of Physiology and Pharmacology da WFU. Atualmente, ocupa uma posição de postdoc no National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), National Institutes of Healthy (NIH), onde estuda efeitos centrais do álcool em neurônios espontaneamente ativos, além de também desenvolver um projeto com animais knockout para receptores canabinóides CB1 em diferentes populações de neurônios e seu envolvimento com aprendizagem habitual. Além de tudo isso, também é autora do blog Prisma Científico e tem uma paixão gritante por leitura e viagens.
Contatos → E-mail: karinaabrahao@hotmail.com | Blog

Entrevista

1 - Por que escolheu a Psicobiologia?
Karina - Porque depois de ter perambulado por diversos departamentos da UNIFESP e observado experimentos com cultura de célula, genética ou microbiologia, o que mais me chamou atenção foi ver o comportamento de um camundongo após administração de álcool, que diga-se de passagem, é bem parecido com nós, humanos. A partir daí sabia que queria fazer ciência que envolvesse comportamento e, consequentemente, o cérebro. Via Psicobiologia eu decidi por ser Neurocientista.

2 - Qual é a sua avaliação para o mercado de trabalho nessa área?
Karina - Eu diria que a minha avaliação da Psicobiologia como especialização para um Biomedico é ruim. Devemos considerar aqui que diversas áreas fazem estágios ou pós-graduação em Psicobiologia, desde psicólogos, farmacêuticos, enfermeiros, médicos, biólogos etc. No geral a Psicobiologia é muito interessante para quem quer seguir a carreira acadêmica e trabalhar com ciência, mas ao meu ver, deixa a desejar quando o intuito é voltar para a indústria. Isso porque na Psicobiologia aprendemos técnicas científicas importantes mas ainda não muito usadas por empresas no Brasil. Por outro lado, vejo um enorme campo de trabalho na educação de graduação e pós-graduação. Se bem cursado, a habilitação em Psicobiologia dá um embasamento neurocientífico muito interessante.

3 - Na sua opinião, quais as vantagens e desvantagens da Psicobiologia?
Karina - Acho que as vantagens e desvantagens estão associadas ao mercado de trabalho que o indivíduo quer seguir e mais ou menos ao que citei anteriormente. Acrescentaria que uma característica da Psicobiologia pode ser uma vantagem e uma desvantagem. A Psicobiologia é uma disciplina ampla. Isso é interessante do ponto de vista de cultura e conhecimento abrangente de determinado assunto. No entanto, deixa a desejar no caráter específico do conhecimento, o que pode vir a ter desdobramentos negativos.

4 - Considerações finais.
Karina - Tenho uma visão real dos aspectos negativos e positivos da carreira, mas sou uma entusiasta e positivista em relação à Psicobiologia e à Neurociência. Apesar do declínio de investimento financeiro em ciência aqui nos EUA, a neurociência ainda tem se sustentado um pouco melhor que outras áreas do conhecimento. Além disso, existe um crescente interesse de se usar o conhecimento da neurociência em diversos aspectos da vida do indivíduo: propaganda, educação, saúde mental etc. Caso queiram trocar mais ideias e discutir mais sobre assunto, entrem em contato. Obrigada pelo convite para a entrevista!

Artigo por: Raphael Gonçalves Nicésio

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