6.3.13

A visão sem os olhos

O cérebro, assim como todo o sistema nervoso é uma vasta rede de neurônios, sinapses, potenciais e muitas outras partes importantes que ainda estão sendo entendidas. Quando pensamos ter finalmente descoberto algo novo, sempre há algo que contradiz os chamados fatos científicos. Um destes fenômenos curiosos é o de como um ser humano utiliza os seus sentidos para perceber o ambiente.

Desde jovens, somos ensinados que temos cinco sentidos básicos: visão, audição, olfato, tato e paladar. Porém, há circunstâncias diferentes, como quando uma pessoa é surda ou cega. Ser surdo ou cego muda completamente a maneira como a pessoa percebe o mundo. Muitas vezes, a sensibilidade se torna muito maior, para compensar os sentidos que não são funcionais. Embora pareça natural esse acontecimento, como um cão de 3 patas que corre tão bem como qualquer outro cão, um olhar mais atento revela que não é tão simples quanto parece.

O sentido mais comum que as pessoas pensam ser reforçado em uma pessoa cega é o senso de audição. Embora isto seja verdade, há outros fatores e sentidos que uma pessoa cega utiliza. Em um estudo feito por pesquisadores, indivíduos cegos ou com os olhos vendados foram colocados em uma sala frente a diferentes circunstâncias, para testar como perceberiam um objeto presente e o quão perto poderiam chegar, sem esbarrar. Os indivíduos que foram vendados reconheceram os objetos rapidamente. Dentre as respostas sensoriais utilizadas na percepção estavam o som de seus passos, a reflexão do objeto, a sombra do objeto, as pressões faciais ou a respiração sendo refletida. Em outro teste, os pesquisadores cobriram toda a pele exposta, para eliminar qualquer onda de ar, permitindo apenas as passagem de ondas sonoras. Ainda assim, as pessoas tiveram um bom desempenho, mostrando que as ondas de ar e a respiração refletida não eram necessárias para a percepção de um objeto. No experimento que eliminou a capacidade dos indivíduos de ouvirem, nenhuma pessoa conseguiu localizar o objeto.

Todos esses testes mostram que a audição desempenha o papel mais importante ao permitir que uma pessoa cega perceba o ambiente ao redor, mas que existem outras ferramentas do sistema nervoso podem ser usadas ​​para ajudar nesta tarefa. No entanto, há outras questões que merecem reflexão, como o que "ver" significa? Como é definido? Como o cérebro e o sistema nervoso fazem essas adaptações? Na tentativa de solucionar essas perguntas outras linhas de pesquisa foram desenvolvidas, a fim de conhecer qual tipo de percepção uma pessoa cega tem e como ela funciona.

O pintor turco aplica sombras e perspectiva em seus quadros.

O artista cego turco, Esref Armagan, foi uma das pessoas estudadas porque é conhecido por ser uma pessoa que nunca teve a capacidade de ver, e mesmo assim pode produzir belas pinturas facilmente reconhecíveis por qualquer pessoa com visão. Armagan foi testado com vários objetos, solicitado a desenhá-los a partir de muitas perspectivas diferentes, o que fez perfeitamente e sem nenhuma dificuldade. Posteriormente, desenhou objetos enquanto seu cérebro era monitorado, para a visualização de quais partes estavam ativas durante estas tarefas. Quando Armagan lembrou dos objetos e os desenhou, seu córtex visual mostrou atividade de forma quase idêntica a uma pessoa que está realmente olhando para algum objeto. Baseados nessa pesquisa, os cientistas concluíram que o córtex visual tem um papel diferente do que pensavam. As pessoas que podem ver usam as mesmas áreas do córtex visual do que quando estão imaginando algo. A mente pode produzir uma imagem no "olho da mente", mesmo sem a possibilidade de usar os olhos para ver algo real. No entanto, o fato de que Armagan possa desenhar as sombras no objeto de qualquer ângulo ou perspectiva não é explicado, já que possivelmente nunca tenha visto como uma sombra é projetada.

Quando se pensa na capacidade da mente de imaginar coisas, tanto quando o indivíduo está acordado ou durante os sonhos, não deve ser surpresa que uma pessoa cega possa "ver" algo que nunca tenha visto fisicamente. É possível imaginar ou sonhar com uma criatura fantástica que não exista na vida real ou "ver" um lugar que nunca existiu. Esref Armagan faz a mesma coisa, pois recebeu instruções da definição de cores e as memorizou, aplicando-as em suas telas.

Retrato de Bill Clinton por Esref Armagan.

Então como o cérebro é capaz de fazer adaptações na percepção e "ver" quando o sentido da visão não funciona? Os sujeitos vendados do experimento puderam perceber objetos apesar de não terem prática sem a visão. Adaptaram-se rapidamente usando os outros sentidos, principalmente a audição. Aliás, todos os indivíduos utilizam o córtex visual para ver algo, tanto fisicamente ou em suas mentes, sejam cegos ou não.

Analisando os experimentos, pode-se dizer que todas as pessoas têm a capacidade de usar esses sentidos "extras" do corpo em situações desfavoráveis. Porém, é muito mais fácil usar os olhos, o que faz com que essas habilidades se ofusquem. Pessoas cegas apenas confiam nos sentidos que já estão presentes nas outras pessoas porque não têm a visão. O mais importante é notar que o ser humano é capaz de usar seus sentidos em um nível muito mais elevado do que imaginado.

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