Epidemiologia

Zoonoses negligenciadas

Qualquer doença ou infecção que é, naturalmente, transmissível de animais vertebrados para os seres humanos ou vice-versa é classificada como uma zoonose. Atualmente, existem mais de 200 zoonoses descritas. São conhecidas há muitos séculos e podem ser causadas por todos os tipos de agentes: bactérias, parasitas, fungos, vírus ou agentes não convencionais. As zoonoses ainda representam uma ameaça à saúde pública, mas muitas delas são negligenciadas, ou seja, não são priorizadas pelos sistemas de saúde. Elas afetam centenas de milhares de pessoas, especialmente nos países em desenvolvimento, embora a maioria possa ser evitada.

Antraz
O antraz é principalmente uma doença de herbívoros, embora todas as espécies de sangue quente sejam suscetíveis. O agente causador é a bactéria Bacillus anthracis, formadora de esporos. O 'reservatório' da doença é o solo contaminado por esporos recentes ou até mesmo de várias décadas atrás. Os humanos normalmente adquirem antraz por contato direto ou indireto com animais infectados ou através da exposição ocupacional a produtos de origem animal contaminados. De 60 países que notificaram o antraz em 2004, quase 60% foram os países em desenvolvimento. Em animais, a doença é quase sempre fatal. Em pessoas, a doença tem três formas. A inalação de antraz é uma doença ocupacional relatada apenas nos países industrializados e adquirida pela inalação de esporos; o antraz gastro-intestinal é adquirido após o indivíduo comer carne infectada de um animal que morreu da doença; e o antraz na forma cutânea, que representa mais de 95% dos casos notificados nos países em desenvolvimento, que é adquirido através de lesões na pele. Em forte contraste com o medo da doença no Ocidente causado pelo seu potencial bioterrorista, o antraz, ano após ano, tem causado doenças pecuárias, porém as mortes súbitas em suas manadas e rebanhos, são amplamente ignoradas.

Tuberculose bovina
Nos seres humanos, a grande maioria dos casos de tuberculose são causadas pela bactéria Mycobacterium tuberculosis. No entanto, a TB podem ser causada por um certo número de outras bactérias, como o Mycobacterium bovis, tornando a chamada "tuberculose bovina ' uma das doenças mais prevalentes e com a maior gama de hospedeiro de todas as bactérias da TB. A tuberculose por M. bovis muitas vezes ocorre na forma extra-pulmonar, mas em muitos casos é clinicamente indistinguível da infecção por M. tuberculosis. No entanto, pacientes com M. bovis, não respondem aos medicamentos comumente usados ​​para tratar a tuberculose em grande parte dos casos, por vezes, resultando em um desfecho fatal. Muito pouco se sabe sobre a participação de tuberculose bovina na epidemia global de TB, mas relatos esporádicos de casos são recebidos de muitos países africanos e asiáticos e um trabalho recentemente realizado na República Unida da Tanzânia indica que esta pode ser uma fração substancial. A tuberculose bovina parece estar aumentando a um ritmo semelhante ao número total de casos de TB, e o HIV é o maior fator para a progressão de infecção por tuberculose para a doença da tuberculose ativa. Na pecuária, principalmente no gado, a doença provoca menor produtividade, mas raramente a morte. Como a brucelose, a tuberculose bovina foi praticamente erradicada de rebanhos no mundo por um programa de detecção e abate.

Brucelose
A brucelose é uma das zoonoses mais difundidas no mundo. Causada por várias bactérias no gênero Brucella, afetam bovinos, ovinos, caprinos, suínos e outros animais levando ao aborto, redução da fertilidade e baixa produção de leite em animais afetados. Pode ser transmitida às pessoas através do contato direto com animais ou por meio de ingestão de leite não pasteurizado de um animal infectado. Nas pessoas, o principal sintoma é a febre recorrente, também chamada de "febre ondulante". A brucelose tem uma forte tendência a ser diagnosticada como malária resistente às drogas em países tropicais. Uma doença crônica e debilitante, que pode causar uma variedade de outros sintomas, incluindo dor nas articulações, fadiga e depressão. Também provoca perdas substanciais aos produtores de gado em rebanhos ou regiões onde é endêmica. Na maioria dos países desenvolvidos, programas de detecção e abate em conjunto com compensações para os agricultores e incentivos financeiros para a diminuição da doença nos rebanhos tem eliminado a brucelose e diminuído o número de casos em humanos.

Cisticercose e neurocisticercose
A cisticercose está emergindo como um sério problema de saúde pública e agrícola em muitos países da África, Ásia e América Latina. Os seres humanos adquirem o parasita Taenia solium ao comer carne de porco crua ou mal passada contaminada com cisticercos, a forma larvária da tênia que se desenvolve no intestino dos seres humanos, onde se estabelecem e se tornam vermes adultos que podem chegar a mais de três metros de comprimento. Esses vermes adultos lançam ovos nas fezes humanas, que podem infectar, por sua vez, os mesmos seres humanos ou outros animais, bem como porcos. A doença é, portanto, fortemente associada com criação de porcos em condições de falta de higiene. Ovos ingeridos resultam em formas larvares que migram para diferentes partes do corpo humano e suíno, formando cistos (cisticercose). Porcos podem portar milhares destes cistos, tornando a carne destes animais impróprias para o consumo e, muitas vezes resultando em condenação total da carcaça. Um local comum da migração em humanos é o sistema nervoso central. A neurocisticercose humana (NCC) ocorre quando os cistos se desenvolvem no cérebro. Ele é considerada uma das infecções parasitárias mais comuns do sistema nervoso humano e é a causa mais frequente de epilepsia no mundo em desenvolvimento. A OMS estima que a cisticercose afete cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo e, em áreas endêmicas,provoque cerca de 50 000 mortes.

Equinococose cística ou hidatidose
A equinococose cística ou hidatidose é causada pela fase larvária da tênia Echinococcus granulosus. Seu ciclo natural ocorre na forma de cisto nos ovinos e com tênia em cães. Os cães se alimentam de carne de ovinos infectados e, por sua vez, lançam ovos em suas fezes, que são ingeridos por ovelhas. Os humanos são infectados pela ingestão de alimentos ou água contaminada com material fecal contendo ovos de tênia que passaram por carnívoros infectados. Os cistos, muitas vezes localizados no abdômen, crescem lentamente ao longo do tempo e podem se tornar muito grandes, e sua cura é geralmente cirúrgica. A hidatidose é encontrada em todo o mundo em comunidades onde as ovelhas são criadas juntamente com os cães. É altamente prevalente em muitos países em desenvolvimento, especialmente em comunidades pobres. Nos seres humanos, a incidência de casos cirúrgicos varia de 0,1 a 45 casos por 100.000 e os intervalos de prevalência entre 0,22% a 24%, em áreas endêmicas. O controle é feito através de vermifugação de cães e da prevenção dos cães de comerem carne de ovinos mal cozida, principalmente os miúdos, bem como controle e educação em saúde. A transmissão é facilitada pela falta de consciência dos fatores de transmissão e medidas de prevenção entre a população em risco, como o alto número de cães abandonados. A inspeção de carne em matadouros, disposição inadequada de miúdos em casas de abate também são práticas válidas. As consequências econômicas muitas vezes não são conhecidas, resultando na negligência da doença.

Raiva
A raiva é provavelmente o mais conhecida entre as zoonoses. É causada por um vírus, que normalmente entra no corpo através de uma lesão ou mordedura na pele e faz o seu caminho até o cérebro. Seus sintomas em animais e pessoas resultam inevitavelmente em casos fatais quando não tratados, sendo de longe, a mais temida das zoonoses. Do ponto de vista sanitário, a medida mais eficaz para a prevenção continua sendo a vacinação do cão, apesar do eventual risco para os cães e pessoas serem infectados por animais selvagens. As pessoas que foram mordidas por um animal suspeito, deve antes de tudo lavar a ferida e depois procurar tratamento pós-exposição. Vários tipos de tratamento pós-exposição existem, mas são muitas vezes indisponíveis em áreas rurais isoladas ou muito caros para os governos ou indivíduos pagarem. Considerando a faixa etária de incidência, em média, 30% a 50% dos casos de raiva humana (portanto, as mortes por raiva) ocorrem em crianças menores de 15 anos de idade. Em algumas áreas, ocorrem perdas significativas para o gado. Mais de 99% de todas as mortes humanas por raiva ocorrem nos países em desenvolvimento, com cães domésticos sendo a fonte da grande maioria dos casos humanos. Apesar de ser uma das doenças mais antigas conhecida pelo homem, ter tratamento disponível e da existência da vacina altamente eficaz em cães, estima-se que cerca de 55.000 pessoas morrem por ano com esta doença.

Doença do sono ou tripanossomíase humana africana
Ao contrário das outras seis doenças descritas, cuja distribuição é mundial, a doença do sono ou tripanossomíase humana africana é limitada ao continente africano, onde seu inseto vetor, a mosca Tsé-Tsé é encontrada. Existem duas formas da doença do sono: a forma crônica gambiense é encontrado na África Central e Ocidental e, apesar de um animal ser encontrado infectado, a doença é mantida pela transmissão entre o vetor e os seres humanos. No entanto, o reservatório animal é importante na forma rhodesiense aguda, encontrada na África Oriental e Austral. O agente causador, Trypanosoma brucei rhodesiense, infecta os seres humanos, animais silvestres e animais domésticos, que mantêm a infecção entre epidemias e convivem em animais como um complexo de tripanossomas patogênicos (T. congolense, T. vivax e T. b. brucei) apresentando um grande problema para os criadores de gado da África. Epidemias devastadoras têm ocorrido durante o último século e, se não for tratada, a doença é sempre fatal em seres humanos. O tratamento é caro, normalmente variando entre US$150 e US$ 800 por pessoa, e nas fases posteriores do tratamento da doença, envolve uma mortalidade de 5%. O controle é feito através no vetor ou nos reservatórios da doença. Para a forma rhodesiense, a chave para prevenir a doença em pessoas é tratar o gado com o uso de drogas que são eficazes não só contra tripanossomas patogênicos aos seres humanos, mas também contra aqueles que causam perdas substanciais na produção de gado, aliada com medidas de controle de vetores adequadas.

WHO

Artigo por: Raphael Gonçalves Nicésio

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