Países do Mercosul criam rede de investigação em biomedicina

O projeto, que durará inicialmente três anos, pretende abordar de forma coordenada o estudo de aspectos biológicos, epidemiológicos e sociológicos de doenças degenerativas da região.

O ano de 2012 será marcado pela concretização do projeto da primeira rede de investigação em biomedicina do Mercosul, com a participação de institutos dos quatro países do bloco sul-americano. A iniciativa é parte do projeto regional Investigação, Educação e Biotecnologia Aplicadas à Saúde, e é financiada em grande parte pelo Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), órgão para a redução das assimetrias regionais do território. O Brasil entrará com a experiência da Fiocruz, enquanto a Argentina será representada pelo Instituto de Investigação em Biomedicina de Buenos Aires (Conicet-Max Planck), vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva. O Instituto Pasteur de Montevidéu, o Laboratório Central de Saúde Pública do Ministério da Saúde do Paraguai (LCSP) e centros associados (Instituto de Investigações em Ciências da Saúde/Universidade Nacional de Assunção e o Centro para o Desenvolvimento da Investigação Científica completam o grupo.
A rede, que durará inicialmente três anos, pretende abordar de forma coordenada o estudo de aspectos biológicos, epidemiológicos e sociológicos de doenças degenerativas da região. Estudará males como Alzheimer e Parkinson; doenças metabólicas como a diabete, a obesidade e disfunções cardiovasculares; patologias neurológicas como a demência e psiquiátricas como a depressão; imunológicas, com ênfase nas parasitárias, como a doença de Chagas; e genéticas e oncológicas como a distrofia muscular e o câncer de mama. O objetivo final, segundo informações do ministério argentino, é pôr a biotecnologia a serviço da saúde da população.
Também atuará na formação de recursos humanos e realizará a aquisição de equipamentos de última geração, além de proporcionar um ambiente de interação para a incubação de projetos inovadores e de desenvolvimento. Assim, a rede poderá criar as condições necessárias para o aumento do valor agregado nas cadeias produtivas do campo da saúde para as indústrias públicas e setor privado da região. 

Ações e exemplos

Agueda Menvielle, diretora de Relações Internacionais do ministério de CT&I argentino, conta que o projeto nasceu há cerca de quatro anos. “Identificamos a possibilidade de conseguir financiamento para a área no Focem. Mas foi bastante difícil fazer com que nossos ministérios de economia entendessem que a CT&I são estruturais. Normalmente, considera-se estrutural a construção de um hospital ou de uma ponte, e não um projeto de C&T”, relata.
Menvielle lembra que a rede vai ajudar a preencher lacunas e que a biomedicina é uma área fundamental “pois está relacionada com todas as doenças que afetam a região neste momento”. “Os quatro países apresentam capacidades diferentes”, ressalta, destacando a excelência dos estudos brasileiros e argentinos em doenças como diabete e obesidade; o trabalho do Uruguai em patologias neurológicas e o estudo das doenças genéticas e oncológicas no Brasil, Paraguai e Uruguai. No campo da imunologia, ela afirma que os quatro países têm grandes contribuições.
Wilson Savino, pesquisador titular da Fiocruz, membro da Academia Brasileira de Ciências e responsável pelo projeto na instituição, conta que a Fundação, por meio da possível criação de um consórcio entre os países, vai capitanear a maior parte da formação de recursos humanos e que fará uma pequena coleção de células de uso no âmbito do projeto.
O logotipo da rede também será criado dentro da instituição brasileira. Em um primeiro momento, estima-se que entre 15 e 20 pesquisadores da Fiocruz participarão do projeto. “Junto com a Argentina e com o Uruguai, teremos a disponibilização de plataformas tecnológicas. Será comprado um seqüenciador de alto desempenho chamado Ion Torrent no âmbito do projeto”, detalha Savino, que conta também que está previsto um livro de neuroimunomodulação, com autores brasileiros e latino-americanos, provavelmente publicado pela editora da Fiocruz.
“Outra coisa que vamos montar este ano é uma rede latino-americana de neuroimunomodulação envolvendo diversos laboratórios”, acrescenta, lembrando que, dentro da rede, a Fiocruz estará muito envolvida na parte de neuroimunomodulação na doença de Chagas, além da migração de linfócitos em diversos modelos de doença. “Nesse âmbito, haverá projetos versando sobre linfomas, sobre neoplasias do tecido linfóide, que serão capitaneados por nós”, revela. Em termos de infraestrutura, Savino conta que o Uruguai, por exemplo, vai montar baias para startup no Instituto Pasteur de lá. “Não teremos [estrutura como essa] aqui, mas poderemos usar baias do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde [CDTS], embora não esteja previsto no projeto”. 

Investimentos e plano

Segundo informações do Instituto Pasteur de Montevidéu, a rede contará com um financiamento de dez milhões de dólares, dos quais sete milhões serão aportados pelo Focem. A Argentina entrará com cerca de 640 mil dólares à parte do dinheiro que o Focem lhe destinará, para material de consumo, manutenção de equipamentos e construção de laboratórios. Por sua vez, a Fiocruz entra com uma contrapartida da ordem de US$ 600 mil.
Savino conta que assim que os recursos forem liberados, alunos e professores já poderão se deslocar. “Ainda estamos fazendo a malha desse deslocamento, que não está pronta. Será realizado na forma de disciplinas e de simpósios. Temos uma reunião marcada em março no Paraguai e a ideia é que se defina um plano de ação”, revela o pesquisador. A experiência de integração regional em CT&I poderia se estender a outros setores, de acordo com Agueda, que afirma também que a rede é “aberta a todos [institutos ou instituições] que quiserem se apresentar”.

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