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HIV na mira de vacina brasileira

Vacina contra Aids desenvolvida por pesquisadores da USP e testada em camundongos induz maior resposta imunológica se comparada com similares. Potencial está relacionado com a capacidade de driblar a mutabilidade do vírus. Uma nova vacina preventiva para Aids está obtendo resultados promissores em testes com camundongos. Desenvolvido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o composto tem como diferencial conseguir driblar a principal característica do vírus HIV: sua mutabilidade.
O HIV replica-se e espalha-se muito rapidamente pelo organismo. Como não há tempo para o controle de qualidade da replicação, ocorrem erros nesse processo e o vírus muda de forma. Assim, cada pessoa infectada passa a ter uma diversidade viral.
A nova vacina utiliza fragmentos de proteínas do HIV que se mantêm conservados na maioria das formas do vírus e são responsáveis por deflagrar a resposta imunológica do organismo. Esses fragmentos foram retirados do subtipo B do vírus, que responde por 90% dos casos de Aids no Brasil.

Vírus HIV (em verde) na superfície de linfócitos humanos. (foto: C. Goldsmith/ CDC)

A escolha dos fragmentos foi feita com base no monitoramento, iniciado em 2001, de um grupo especial de portadores de HIV, os chamados progressores lentos. Esses pacientes permanecem durante dez anos ou mais sem apresentar qualquer infecção, enquanto a média para aparição de sintomas é de cinco anos.
“Os fragmentos selecionados são capazes de gerar uma resposta imunológica em 100% dos progressores lentos e 90% dos pacientes de outros grupos”, diz o imunologista Edécio Cunha-Neto, que coordena a pesquisa.
Cunha-Neto explica que os fragmentos de proteína estimulam a produção de linfócitos T CD4, o principal alvo do HIV. Essas células regem as principais funções do organismo no controle de uma infecção: estimulam tanto células que produzem anticorpos quanto os linfócitos T CD8, que liberam toxinas em resposta ao vírus e matam as células infectadas.
A maioria das vacinas elaboradas até então focavam no estímulo ao aumento dos linfócitos T CD8, mas a resposta dessas células é menos eficaz se os linfócitos T CD4 não estão ativados, ou seja, se ainda não tiveram contato com o vírus e não receberam estímulo para alimentar a resposta imune.

Faca de dois gumes

O estímulo à proliferação de linfócitos T CD4 pode ser uma vantagem, por um lado, e um risco, por outro. Quando o HIV penetrasse no organismo, encontraria uma maior quantidade de linfócitos T CD4 em alerta – estimulados pela vacina –, o que poderia gerar uma maior replicação viral, já que essas células são o alvo do HIV.
Cunha-Neto não acredita nessa possibilidade. “Estudos anteriores em que foi induzida maior produção de células T CD4 em macacos mostram que a replicação do HIV não aumenta; em várias vacinas, foi até menor.”
Segundo o pesquisador, a vacina, que já foi patenteada no Brasil, Estados Unidos e União Europeia com o nome HIVBr18, obteve resultados animadores em uma primeira fase de testes com camundongos convencionais e camundongos que expressavam parte da diversidade imunológica humana. Nos animais estudados, a imunização por HIVBr18 induziu a proliferação dos linfócitos T em geral e o reconhecimento de 11 dos 18 fragmentos pelas células T CD4.
No entanto, como o vírus não infecta esses camundongos, agora a vacina será testada em camundongos mutantes, que receberão transplante de medula óssea humana para desenvolverem um sistema imune similar ao nosso. Nos próximos meses, também estão previstos testes com primatas, cedidos pelo Instituto Butantan. O pesquisador espera que, daqui a dois anos, terminem os estudos com animais e possam se iniciar os primeiros testes em humanos.
Apesar do potencial da nova vacina, Cunha-Neto pondera que, mesmo que os resultados das próximas etapas sejam positivos, dificilmente o produto chegará à população sem uma substancial ajuda governamental. “Tivemos apoio de agências de fomento nacionais para essas fases iniciais do estudo, mas não é fácil conseguir recursos para financiar testes de eficácia em humanos”, diz, acrescentando que essa fase da pesquisa requer entre 100 e 150 milhões de dólares.
“Esse tipo de decisão é política”, avalia. “Além disso, dificilmente uma empresa privada investiria em uma vacina de HIV, pois o histórico das pesquisas mostra que a chance de dar certo é menor que a de dar errado.”
O imunologista ressalta ainda que o desenvolvimento de uma vacina para a Aids não descarta a necessidade da prevenção por métodos convencionais. “Mesmo se houvesse uma vacina eficaz, ainda seria preciso se prevenir de outras formas”, diz. E completa: “A vacina será apenas mais um componente da estratégia de prevenção.”


Gabriela Reznik
Ciência Hoje

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