Oncologia

Linfoma de Hodgkin vs. Linfoma não-Hodgkin

Fonte: UNICAMP
O termo linfoma designa um conjunto de doenças linfoproliferativas malignas que apresentam significativa heterogeneidade clínica e biológica. Todos os linfomas originam-se nas células do sistema linfoide: os linfócitos e seus precursores. Qualquer uma das subpopulações de linfócitos (linfócitos B, T ou NK), em seus diferentes estágios de maturação, pode sofrer transformação maligna. Cada subtipo de linfoma, geralmente, mimetiza um estágio específico da diferenciação linfocitária, em termos de características morfológicas, imunofenotípicas e genéticas, sendo essas características os pilares que sustentam o diagnóstico e a classificação dos mais de cinquenta diferentes subtipos de linfomas reconhecidos atualmente.
O linfoma compreende tanto os linfomas de Hodgkin quanto os linfomas não-Hodgkin. O linfoma de Hodgkin é responsável por 12% dos casos de linfoma, sendo caracterizado pela presença de células grandes e facilmente identificáveis no linfonodo acometido, conhecidas com células de Reed-Sternberg. Essas células – as únicas verdadeiramente neoplásicas no linfoma de Hodgkin – são geralmente observadas em número reduzido, em meio a uma mistura de células inflamatórias e estromais no tecido tumoral.
O predomínio de um microambiente inflamatório e a relativa escassez das células de Reed-Sternberg fizeram com que, durante décadas, pairassem algumas dúvidas sobre a classificação inequívoca do linfoma de Hodgkin como um tipo de câncer, ao invés de uma doença inflamatória ou infecciosa. Tanto é assim que, desde a sua descrição por Thomas Hodgkin, em 1832, até bem recentemente, este tipo de linfoma era conhecido como ”doença” de Hodgkin. Apenas na década passada passou-se a preferir a denominação linfoma de Hodgkin, por ter sido demonstrado que as células de Reed-Sternberg são clonais, e quase sempre derivadas de linfócitos B maduros que sofreram transformação maligna, não restando qualquer dúvida sobre a classificação desta doença como um tipo de linfoma.
 Os linfomas não-Hodgkin, muito mais comuns, também são predominantemente derivados de linfócitos B, sendo que apenas cerca de 10% dos casos originam-se de linfócitos T ou NK. Ao contrário do linfoma de Hodgkin, os linfomas não-Hodgkin não têm um tipo celular característico, apresentando expressiva heterogeneidade morfológica, imunofenotípica e genética. Outra diferença é que nos linfomas não-Hodgkin há um contingente menos significativo de células inflamatórias e estromais no tecido tumoral, e a grande maioria das células são clonais, derivadas de um precursor linfoide comum que sofreu transformação neoplásica.
Do ponto de vista clínico, os pacientes com linfoma de Hodgkin geralmente se apresentam de forma relativamente homogênea, com linfonodos aumentados, particularmente na região cervical, de origem unicêntrica, e sem doença extranodal, i.e., sem doença em órgãos que não pertencem ao sistema imune. O linfoma de Hodgkin tem um padrão de progressão previsível, disseminando-se por invasão contígua de cadeias ganglionares adjacentes.
Embora muitos pacientes com linfoma não-Hodgkin possam ter características clínicas semelhantes àquelas dos pacientes com linfoma de Hodgkin, o quadro clínico tende a ser muito mais heterogêneo. Pacientes com linfoma difuso de grandes células B, por exemplo, o subtipo mais comum de linfoma não-Hodgkin, geralmente se apresentam com massas tumorais de crescimento rápido, até 40% dos pacientes podem ter doença extranodal, inclusive com invasão da medula óssea. A evolução clínica tende a ser mais agressiva e muito menos previsível do que no linfoma de Hodgkin.
Pacientes com linfoma folicular, o segundo subtipo mais comum de linfoma não-Hodgkin, usualmente se apresentam com doença multicêntrica, de crescimento lento, podendo até cursar com quadros de linfadenopatia transitória. A incidência de infiltração da medula óssea é significativa e pode haver invasão do sangue periférico, inclusive, com uma fase francamente leucêmica em alguns casos. O linfoma folicular tende a ter um comportamento indolente, mas segue um curso imprevisível: enquanto alguns pacientes convivem com a doença por meses ou até por anos sem necessidade de qualquer intervenção específica, outros têm aumento relativamente rápido da massa tumoral e requerem modalidades intensivas de tratamento.
Pacientes com linfoma esplênico da zona marginal, outro subtipo de linfoma não-Hodgkin indolente, em geral se apresentam apenas com aumento do baço, sem adenomegalia associada, e com linfócitos com alterações citomorfológicas, ou seja, projeções citoplasmáticas curtas no sangue periférico. Esse subtipo de linfoma usualmente tem progressão lenta e, por isso, esses pacientes são apenas observados clinicamente, por longos períodos. Quando necessário, a esplenectomia pode aliviar os sintomas e reduzir a massa tumoral resultando em boa resposta de longo prazo, na maioria dos casos.
Esses exemplos, além de demonstrar as diferenças mais relevantes entre os linfomas de Hodgkin e os linfomas não-Hodgkin, oferecem uma breve perspectiva do desafio que a significativa heterogeneidade clínica e biológica dessa doença impõe ao diagnóstico e, principalmente, ao manejo clínico dos pacientes com esse tipo de câncer.

Dr. Edgar Gil Rizzatti é coordenador do Centro de Atendimento Especializado ao Paciente com Linfoma e integrante do Grupo de Hematologia do Fleury Medicina e Saúde.

Artigo por: Raphael Gonçalves Nicésio

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